30 de março de 2015

Dueto da tarde (CIX)



Dueto da tarde (CIX)

Naquela aquietada tarde de verão ouviu-se de um coração a voz de prisão.
Você é meu!, dizia ele para si mesmo, mesmo sem entender o que dizia.
Seria paixão doentia, doação, ação – reação ou fantasia?
Não havia espelho que respondesse. Vê-se que sozinho resolveria.
Buscando em todos os âmbitos os amores recentes, deparou-se com a poesia.
Era a única forma de aplacar a nostalgia e transformar tristeza em alegria.
Mas já era de casa a poesia: arrumava a cama, cuidava dos cães, fazia comida, preparava a marmita e ainda trabalhava como vigia.
Até quebrava o galho na medicina: muitas vezes curou sua azia.
Sozinha sentia-se solitária, por isso pulava cercas e muros, pulava o claro e o escuro, pulava corda com a vizinha e no violino pulava acordes... era assim seu dia a dia.
Dois solitários então. O dono do coração e a poesia com sua carga de melancolia.
Dois viventes famintos; dois siameses distintos; dois incentivos à vida criando o lume em uma tarde sombria.
Duas sombras que a agonia embalava em papel bonito, colorido como a melodia
E como toda música, toda vida, com possibilidades da concluída entoada, poética, bonita, dialética... quente e fria...
Vida dizendo sim o tempo todo e eles o tempo todo ouvindo não.

Rogério Camargo e André Anlub
(30/3/15)
ALGUNS MINICONTOS

Excursão pela Europa. De repente uma voz pergunta:
- Que lugar é este?
E uma voz responde:
- Hoje não é terça-feira? Então isso é a Holanda.


A Originalidade reclamou que a Mesmice vivia se repetindo. A Mesmice respondeu que ser original era problema da Originalidade.


Sinto pena das horas que passam como minutos e não conseguem aproveitar a si mesmas. Dos minutos que passam como segundos não tenho tanta pena assim. Mas das horas que passam como minutos tenho tanta dó que, se elas vissem, passariam como séculos.


- Você tem certeza do que vai dizer?
- Claro que não. Nunca tive.
- Então você é a pessoa certa. Pode falar.


- Senti tua falta.
- É. Eu também senti minha falta.
- Onde você estava?
- Se eu soubesse, não teria sentido minha falta.


- Preciso melhorar a minha imagem!

- Vai trocar a antena ou instalar um cabo?

ROGÉRIO CAMARGO 

29 de março de 2015

Será que sou ave em seu sonho?



Será que sou ave em seu sonho? 
- Até coloquem palavras em minha boca... mas que nasçam poesias.

Tempo malvado, malvisto e infausto.
Muitas águas tumultuosas – marés nervosas – ventos de inverno e inferno astral: 
sei de pessoas idosas com extrema dificuldade em andar/nadar.
Vejo algoritmos de vaivéns escritos sem nitidez em pergaminhos;
peço ajuda a estranhos e fico aborrecido por desconstruírem meu ninho.

Desenterrei meu tesouro e veio-me você – assim – num estouro –,
deixando o que pode no poço e empossando-se agradavelmente do espaço.
Hoje sou o mesmo Eu, mas mais suave; sou velho, menino e sou ave.

Voei – vou e fui bem longe: larguei a máscara de mau moço,
pois é mau demais para onde vou – é mau demais para tudo isso (que está por vir).
Jocoso – o sorriso largo do lagarto ao ver nascerem suas pernas na saída do lago.
Viçoso – saber que foi sonho ao ver do lagarto um lacaio atropelado na estrada.

O tempo é intenso, anda com pressa e sente medo e se sente vivo; 
faz ideia que loucura é isso?
Ganhei a confiança da mudança, estou voando e procurando nossa janta:
Salmão, garoupa, lagosta?
Tudo tem sua hora e tem o espaço a ser ocupado e tem regaço e tem aurora.

E no sonho temos o céu, não somos cegos e citamos metáforas:
Ajeitei a cozinha, voltei da vinícola, me espere pescar...
você fisgou seu peixe, é de praxe, mas odeia comê-lo cru e sozinha;
bom apetite – vou cozer para nós.

André Anlub
(29/3/15)

Para ponderar:


Último poema de Soledad Barrett, escrito para sua mãe, no dia de seu aniversário, 11 de Setembro de 1971, pouco antes de partir para a luta contra a ditadura militar. Mesmo grávida foi espancada e barbaramente assassinada!

Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.

Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!
Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.

Madre, me apena verte así
el quebrado mirar de tus ojos azul cielo
en silencio implorando que no parta.

Madre, no te apenes si no vuelvo
me encontrarás en cada muchacha de pueblo
de este pueblo, de aquel, de aquel otro
del más acá, del más allá
talvez cruce los mares, las sierras
las cárceles, los cielos
pero, Madre, yo te aseguro,
que sí me encontrarás!
en la mirada de un niño feliz
de un joven que estudia
del campesino en su tierra
del obrero en su fábrica
del traidor en la horca
del guerrillero en su puesto
siempre, siempre me encontrarás!

Mamá, no te pongas triste,
Tu hija te quiere.

Soledad Barret Viedma, nascida no Paraguai, foi militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e era de uma família culta e politizada. Era neta do renomado escritor hispano-paraguaio Rafael Barrett.

Por causa do ativismo político de sua família, que a obrigava ao exílio, viveu na Argentina e no Uruguai. Aos 17 anos, foi sequestrada por um grupo de neonazistas que exigiram que ela dissesse “viva Hitler”. Diante da negativa, marcaram suas coxas com a suástica nazista.

Cansada das perseguições, Soledad decidiu ir para Cuba, onde conheceu o brasileiro José Maria Ferreira de Araújo, militante da VPR exilado na ilha.

Em 1973, a militante e mais cinco companheiros da VPR foram 
assassinados nos arredores do Recife (PE), num episódio conhecido como o Massacre da Chácara São Bento. Segundo a versão oficial, os militantes foram mortos numa troca de tiros na chácara. O jornalista Elio Gaspari, em “A ditadura escancarada”, classifica o episódio como “uma das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura”. Segundo a versão do jornalista, os militantes foram capturados em ao menos quatro pontos distintos do Recife, torturados e depois levados até a chácara. Foram encontrados 26 tiros nos corpos dos militantes, sendo 14 deles na região da cabeça, o que evidenciaria mortes por execução.

As forças da repressão, chefiadas por Sérgio Paranhos Fleury, teriam conseguido obter informações sobre a localização dos militantes graças aos serviços de Cabo Anselmo, militar que se infiltrou na VPR e mantinha um relacionamento com Soledad, que estava grávida de um filho dele.

Soledad foi encontrada nua dentro de um barril numa poça de sangue, tendo aos pés o feto de 4 meses. Um dos mais hediondos crimes cometidos nos Anos de Chumbo da Ditadura Militar, no Brasil.

Soledad recebeu quatro tiros na cabeça e apresentava marcas de algemas nos pulsos e equimoses no olho direito.

Mércia de Albuquerque Ferreira, advogada de presos políticos na época, conseguiu ter acesso aos corpos removidos para o necrotério. Sobre Soledad ela declarou, em depoimento formal:

“Ela estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta, e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta, ficou algum tempo deitada e depois a trouxeram. O sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror.”

Dueto da tarde (CVIII)



Dueto da tarde (CVIII)

O pequeno frio é um ensaio para o grande frio.
Permita-me comentar: o trio elétrico vai passar.
Talvez haja calor nele, talvez apenas ruído.
Foi imbuído a trazer dúvidas e calafrios.
O que ferve nele pode esquentar a alma ou congelar.
O que serve nele é a nova calça jeans em liquidação.
O consumo num assomo de agasalhar. Ou de dar aparência.
E se houver extrema experiência: aquecer, decorar e enfeitiçar.
O pequeno frio dá uma pequena risada e segue o ensaio.
Não sei se entro ou saio para observá-lo observando os vassalos.
Deixá-los em paz é ironia: eles não sabem o que é isso.
Então se usa o feitiço criando o compromisso com os vis castigos.
Castigo maior é o grande frio. Que o pequeno ensaia na praia,
Que o médio desconhece na vaia, que o grande reafirma em sua baia,
Que o enorme traz para sua raia e todos concordam em um ponto:
Quem não afaga que vá para o raio que o parta.

Rogério Camargo e André Anlub
(29/3/15)

Parabéns Salvador

Com Mariene e Margareth, Bethânia leva emoção a aniversário de Salvador
Apresentação reuniu 50 mil pessoas, segundo estimativa da prefeitura. 
Capital baiana completa 466 anos no domingo e tem série de festejos.

Maria Bethânia, Margareth Menezes e Mariene de Castro em Salvador (Foto: Valter Pontes/Divulgação)

Quatro em Salvador:
(André Anlub - 26/10/13)

I
É no embalo do calor humano,
Arte que grita no urbano;
Salto das classes
Que falam aos ouvidos,
Destemidos artistas do azul infinito... 

É de sal e saudade,
De real e sonho,
Esperança e destino. 


II
(a merecer) 
O por do sol por trás do Farol da Barra,
É barra não me pôr à mercê
Do (so far) rol dos saudosistas.

III
Moqueca e bobó de camarão,
Vatapá, caruru, azeite de dendê,
Sururu, acarajé, pirão e um assado cação;

Viver só é bem bom
Quando é mais, mas muito mais,
Que o bater de um coração.

IV
Salvador de amor de sol generoso
E poderoso sal de mar de amar...

28 de março de 2015

Dueto da tarde (CVII)



Dueto da tarde (CVII)

É a vez das vozes da mãe, do pai, do filho natureza, naturalmente e nada mais.
Alguma coisa diz que é a vez da voz e a voz não vara a vez com avisos avulsos: manda ver,
Só para entreter, ser amistosa e ver fluir, evoluir, desenfrear a mente anacrônica e choramingosa.
Se consegue ou não consegue, o mote que a persegue faz notar a quem se negue o quanto é inútil se negar.
Sonegar a negativa é admitir o erro, mesmo que só por dentro. Eis que assim surge o enterro de toda a possibilidade de acerto.
Féretro concorrido: a família, os amigos, os conhecidos, os fãs, os desafetos, os sem-teto, os arquitetos de um mundo melhor comparecem.
Sambam o samba do crioulo doido em cima do caixão do morto. É torto? Até pode ser; é mentira? Até é; mas a diversão é garantida.
Nada é mais risonho que o sonho da seriedade: todos direitinho em seus papéis. Vão-se os anéis, vão-se os dedos, a mão recusa-se a ir.
E as vozes cantam os cantos das selvas para tentar tirar das trevas quem das trevas acha que se agrega.
Presente grego? Talvez um apego maior ao sossego, que torna-se inação, inanição, decomposição. Enquanto isso é disso que vive.
Enquanto isso no hospício a mente retrógrada se acomoda; cercada de antigamente ao som de quem já se foi, escreve o dia inteiro com caneta tinteiro no papiro que se decompõe.
Enquanto isso as vozes falam. Se puderem falar até o fim dos tempos, os tempos terão fim com as vozes falando.

Rogério Camargo e André Anlub
(28/3/15)

27 de março de 2015

Memórias da Guerra

¿Tendrías el valor de subir a cambiar el foco de esta antena? Checa la #videorecomendación de hoy
Posted by Siempre 88.9 on Quarta, 14 de janeiro de 2015


Memórias da Guerra
(André Anlub - 19/4/11)

Em meio a fumaça cinza com um toque avermelhado,
Embaixo de um céu que é testemunha:

Vejo ferros retorcidos, destroços,
Corações calados, que gritam...
Vejo o tempo congelado.

Em meio às ruas esburacadas
Vejo pertences abandonados (abrigos)
Vejo um rio frio...

Rio de cartuchos que tiveram seus projéteis deflagrados,
Todos com nomes - objetivos
Calar um peito inimigo,
Um corpo latente a ser alcançado,
Silenciando-o e roubando-lhe sonhos.

Como o corte de uma navalha,
Como quem tira o doce de uma criança,
Como quem tira o amor e a esperança,
Em troca de uma medalha.

Hospício

Just another relaxing day on the water.....
Posted by Mustang 87.7 on Quarta, 10 de setembro de 2014


Hospício
(André Anlub - 23/7/09)

Salientaram no hospício
Ninguém iria comer
Injeções na testa...
Mais que um sacrifício.

Uma doutrina errada,
Condições terríveis,
Faces amarguradas...
Pessoas mais que sensíveis.

Não tinham valor algum,
Exclusos da sociedade,
Pessoas novas e de idade...
Somavam um mais um.

Indigentes, obscenos
Cenas do dia a dia,
Pretos, brancos, morenos...
Sujeitos à revelia.

Desprezados pela verdadeira família,
Inúteis sem poder reciclar,
Cães expulso da matilha...
Sem ter mais em quem amamentar.

Aos montes iam se definhando,
Em um frenético vai e vem,
Homens mortos andando...
Passos calmos pro além.