4 de março de 2015

Dueto da tarde (LXXXIII)



Dueto da tarde (LXXXIII)

Nenhuma represa detém as águas do sono. Elas vêm com a determinação dos sonhos, nos permeiam com um toque do “homem da areia”.
Tudo se desmancha, como o homem de areia, quando o sono toma conta. E o sono sempre toma conta.
Houve um tempo que seu sono era em branco, era um vulto de nada da hora de dormir até o acordar; tempos ruins para quem ama sonhar.
Ele até sorri lembrando disso. Um sorriso que vai adormecendo como a pedra em que recosta a cabeça.
Embarca numa barca no sono ao som do oceano de águas claras, aparentemente rasas e lotadas de peixes; e aqui, ele e sua vara de pescar sem isca e sem pressa.
A brisa passa por ele e imagina sonhos de brisa. Mas apenas porque é generosa. A pedra é mais dura: tem convicção nos sonhos de pedra.
São contrassensos: dorme-se como uma pedra para acordar feito brisa, sonha-se com nada para sonhar mais quando estiver acordado e pesca-se sem isca para alimentar a consciência.
No mundo que há por trás do muro, as possibilidades são todas. De todas, os olhos fechados veem nenhuma, do lado de cá do muro.
É o mote diplomático de encarar a barreira, emoldurar o muro, seguir os rastros da serpente, ultrapassando a fronteira entregue a seu inconsciente.

Rogério Camargo e André Anlub
(4/3/15)

3 de março de 2015

Dueto da tarde (LXXXII)



Dueto da tarde (LXXXII)

Não há problema: saiu à francesa fazendo corretamente o esquema, pegando a viola e pondo no saco.
Sair sem ser notado e não haver problema são sinônimos em algumas línguas.
E falando em línguas: distraído esqueceu-se de esquecer o gosto da língua dela que ainda permanece na sua boca.
Tinha sido bom. Queria que continuasse bom. Talvez até a próxima esquina, quem sabe. 
Mas o caminho até em casa é longo.
Tão logo se esqueça, mesmo que não mereça, outras línguas virão; antes mesmo da vitamina ao chegar em casa, depois de dobrar a próxima esquina, outras línguas virão.
Por enquanto, o prazer de meia hora tem aspecto de eternidade. Mas... O que era mesmo para trazer do mercado?
Seria o leite das crianças? Mas ele não lembra nem mesmo do preservativo! Só lembra de inventar um pretexto evasivo.
A distração no brinquedo ainda vai fazer a brincadeira acabar mal. Mas por enquanto é esse gosto, esse perfume, essa lembrança.
E vão-se as casas de luzes vermelhas, voam as abelhas empanturradas de mel; no seu mudo céu de estrelas salientes se sente um errante violeiro e infiel.
Assobia estridente, finge estar contente. Talvez esteja mesmo, feliz a esmo, de graça, porque tudo passa – menos este gosto, pelo menos até o lado oposto da calçada.

Rogério Camargo e André Anlub
(3/3/15)

Barco



Ele é barco à deriva,
com pernas já cansadas 
olhos que veem pouco
a voz que é quase nada.
Mas ainda joga o jogo
tem asas para o voo
e aposta sempre alto
num farto salto solto...
Ele pode ser eu
ser você
e ser todos.

André Anlub®
(5/2/14)


Líquido sagrado de Baco


Líquido sagrado de Baco
(André Anlub - 15/5/13)

Rigoroso esse tempo bom na tela do céu azul,
Enorme pingo quente dourado, 
Mas amargurado ele caminha sem norte (também sem sul).

Só esperou o cair da noite e foi-se frenético abraçar a boemia:
Nas mesas bambas dos piores bares sentiu-se bem, satisfeito,
Era aquilo ali (Alá, a luz, além) que ele queria.

Com as paredes descascadas e encardidas, 
Banheiros de intolerável cheiro ruim;
A meia luz...
A farra no garrafão de vinho barato que esvazia:
Todo feio se faz tolerável;
O detestável é a alegoria da vida.

Com três palitos de dente se faz um xadrez psicológico,
De deixar Freud confuso e Confúcio fã de Pink Floyd.

O que eu faria em uma atmosfera assim? 
Além do porre corriqueiro:
De janeiro e meu aniversário;
De ver estranhos saindo do armário;
De tudo que é falso tornar-se verdadeiro.
O que eu faria?

Largaria o último copo e voltaria ao primeiro,
Desde onde a mente vai demudando,
O tom de voz aumenta, palavrão atroz vira salmo,
E enterra-se qualquer tormenta.

O que eu faria?
Vou voando – bem calmo ao terreno estrangeiro.
A insanidade das horas perdidas no líquido sagrado de Baco:
Com uma mão vai afundando o barco
E com a outra fornece o salva-vidas.

2 de março de 2015

Bloquinho de papel de pão



Bloquinho de papel de pão
(André Anlub - 22/3/14)

Viagens na forma e na cor,
De contornos vê-se a alvura das nuvens 
E o livre leve nacarado da flor.

Esparramando nas entranhas,
Eis entranhas que fulgem:
De paixão e luz tamanhas
Que aqui e ali nomeamos de amor.

Sonhos que voam e pousam num flash,
Longínquas dimensões são transpostas
Nos pífanos porretas do agreste.

Segurando um ínfimo lápis mal apontado,
Com a borracha aos pedaços no outro extremo
- Desenha a clave de sol - escreve um belo soneto
Num papel de pão amarelado.

Fulano da Silva, Sicrano Barbosa e Beltrano dos Santos


Fulano da Silva, Sicrano Barbosa e Beltrano dos Santos

Deu um gole no chá verde gelado e ao descansar a xícara, sorriu; viu-se num lago novamente o guri que um dia brincou com seus sonhos alados.

Congelando o momento foi trajando o futuro, luz no fim do túnel do incerto predestinado; no amanhã um apogeu deveras absurdo é a essência madura que utopicamente nasceu. Viu-se feliz com o viver protegido, viu-se ungido com o suor de mil anjos.

Na boca pequena um grandioso sorriso e os ouvidos docemente arranhando violinos de Vivaldi em arranjos; faz-se adulto, pecante e andarilho, com rugas no rosto e prantos arquivados.
É trem de carga que não carece de trilhos; abandonou seu abrigo, sem culpas e mágoas.

Chegou o tempo das convicções positivas, de amores desatados por mãos limpas e lavadas com o suor da procura. Eis mais um desafio no meio do povo  “de andar semelhante”: - barba bem feita, o sapato novo e alma nada desnuda.

Eis o semblante guerreiro, os filhos na escola e hora na labuta: - comida na mesa e nove talheres para apenas duas mãos.

Chegou o tempo de desprender-se do básico
E não se sentir um traste por nada ter de praxe.

Fugindo da história: 
Foi convicto à feira no domingo e comprou seu peixe... subiu no velho caixote e disse a todos os ouvintes: - é bendito e bem-vindo o tal de Benvindo Nogueira... deputado do povo (eleito por ser um homem oprimido).

Voltando à história: 

No arraste das horas a barba crescendo e o sapato mais velho; vê-se esotérico ao som erudito de um novo critério; agora homem simples, Sicrano da vida em um mundo baldio.

A vida estava por um fio, mas as nuvens se foram e  tempestades sumiram. (o chão é o limite)
O tempo chegou, o clarão é mais vivo das asas no apoio e o voo continuo. (o céu é o limite).

Há estradas fáceis que levam ao pecado, mas há também caminhos íngremes que estendem o tapete vermelho pro nada.

Ao final da tarde as flores enfim se mostram (mais dela) submissas, num colorido real e pétalas como olhos famintos de belo. 

Ela, dama, atravessa os jardins, os passos tímidos e sutis, abrindo os lábios e deixando brotar as próprias cobiças; um artista do amor sorri, aponta seus dedos magros, (outrora gordos e inebriados de nanquim): - Ai, ai, ai, é o fim, ela não me notou... choram eu, ele, você e os jardins. E o chá, um sopro para esfriar; vem aqui – foi lá. 

A fumaça do tabaco profana a luz
Que atravessa a janela adentrando o quarto, trazendo a beleza que há, aos olhos abertos, no limpar das remelas, no sonhar – realizar e fazer jus. 

Beltrano dos Santos é uma figura, já foi profeta, mas não se mostrou... só ele sabia; nas alquimias que os anos trouxeram, a derradeira ainda estaria porvir; mas ele não tem pressa, o amor não tem pressa e o que só interessa é o acreditar sem fim.

- André Anlub

Dueto da tarde (LXXXI)



Dueto da tarde (LXXXI)

É um rapaz criativo, mas que usa palavras repetidas, tidas como ingênuas e nuas no sentido implícito; cito um exemplo conciso:
Informação nunca é demais. Você fala, ele ouve. Ouve mesmo. Mas você nunca vai ficar sabendo o que ele “criou” com elas.
E nas mazelas elas se reinventam, tamanha incoerência exposta, posta aos olhares e ares.
É um rapaz super ativo, mas você não percebe a super atividade dele. É um rapaz que dá voltas em torno da terra, mas você não percebe seu corpo se mexendo.
Camufla-se em árvores, em peixes, pássaros e tudo; cresce galgando espaço e faz do externo seu núcleo.
Certo dia uma nuvem lhe perguntou por onde andava. Ele respondeu. A nuvem não ouviu. Certa noite uma lua lhe sorriu. Ele retribuiu. A lua não viu.
Se o núcleo fosse o centro, a nuvem ouviria, a lua veria e com o sol também conversaria. Mas o núcleo não é o centro.
O núcleo é um embuste, é como um busto em praça pública que ao “João ninguém” representa.
Fora é fora. Dentro é dentro. Dentro fora é nada. Mesmo para um rapaz criativo que use palavras repetidas, tidas como ingênuas.

Rogério Camargo e André Anlub 
(2/3/15)

1 de março de 2015

Dos desafios



Dos desafios
(André Anlub - 2/8/12)

Sentinelas do mais profundo amor, vejo pela janela as folhas e pétalas que caem pintando o chão... 
formam os tapetes dos amantes, síntese da emoção de todos os seres vivos.
Já tentei deixar de ser romântico, ver o mundo em branco e preto, lavar bem lavado meu despeito e organizar minha semântica.
Pego a massa e faço o pão, uso a farinha que vem do trigo;
Existe aqui dentro um insano coração que se materializou tão somente por você.
Vai dizer que me embriago por não tê-la, sons antigos na vitrola e deito-me em posição fetal... estou fraco para o viral e depressões e forte para construir minhas teias.
Em absoluto desafio... quero ser chefe dos meus desatinos
levantando e regressando à caminhada, vestindo minhas melhores roupas e colocando meus anéis...
(fazendo o que sei fazer de melhor).

Dueto da tarde (LXXX)



Dueto da tarde (LXXX)

A lembrança mais querida de uma infância muito feliz bateu à porta,
Tempos de rodas de ciranda, rodas de bicicletas, rodas de leitura e a vida rodou na estrada.
A porta abre para a lembrança e para o que a lembrança não tem nem pode ter:
Rebobinar a fita e viver tudo novamente – claramente – calmamente – em HD.
Pela porta aberta o que entra, com pantufas de melancolia e passos nostálgicos vai em busca de um abraço e acaba achando a ironia, os braços ocupados no futuro, segurando a nova vida.
Suspira, abre a geladeira, pega uma cerveja, pensa em guaraná, em coca light, em fanta uva, dá um sorriso torto e deixa cair uma faca dos dentes. Faca? Lembra-se de que não sabe como surgiu ali, de onde veio, não sabe seu nome, nem o início – o fim, nem ao certo o meio.
A faca quase atinge seu pé. Cai cravada rente. Não há nenhuma lembrança igual, nem parecida, entre as lembranças mais queridas de uma infância muito feliz.
A loucura sobe à mente e novamente a faca volta aos dentes; há controvérsia em seus pensamentos e há indiferença em seus esquecimentos. Sem saber o que fazer: ajoelha, reza, chora e sente.
Sente e ressente-se. Senta-se, levanta. Levanta, senta. Tenta outra coisa. Não consegue. Pensa em usar a faca para cortar os pulsos. Mas vê que ela pode ter outra utilidade:
Corta um peixe, tempera, acende o forno e espera... enquanto isso abraça sua criatividade, pois seja qual for sua idade, em seu sonho – sua mentira – sua verdade,  ela sempre impera.

Rogério Camargo e André Anlub
(1/3/15)

Por onde andei? - oficina de lirismo do Balcão de Poemas

Mais uma vez entre os amigos da NOP - http://inspiraturasbooks.blogspot.com.br/2015/03/por-onde-andei-oficina-de-lirismo-do.html

Das lágrimas



Das lágrimas
(André Anlub - 24/5/14)

Preciso de versos certos
De encaixes precisos,
Que construam uma obra prima
Da mais bela e enigmática.

Preciso da ideia no foco,
Estar sedento e famélico,
Lutando contra o branco do vazio
Sem armas ou mapas,
Sem asas endurecidas
Ou velas furadas.

Quero ouvir a verve gritando
Ao mundo, ao pouco,
Como louca rara
Que absorve a vida aos poucos.

Preciso da sua leitura
De corpo nu em noite tão escura
Que nem as estrelas deram as caras.

Preciso do deleitar dos olhos vexados,
Umedecendo e emudecendo,
Abertos, fechados,
Deixando cair suas lágrimas.

Rio 40° - 450 anos