25/10/2014

Cálice, um rabisco e muito som!


Cálice
Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil
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Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
Nem seja a vida
Um fato consumado
Quero inventar
O meu próprio pecado
Quero morrer
Do meu próprio veneno
Quero perder de vez
Tua cabeça
Minha cabeça
Perder teu juízo
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
Me embriagar
Até que alguém me esqueça

24/10/2014

Para sua consciência:




A histeria de hoje, muito compenetrada no seu papel de para sempre por algumas horas, rasgou tudo que a histeria de ontem escreveu para se lembrar no dia seguinte.


Tinha uns ares em que passarinho algum ousava bater asas. Quando muito, eram ares que permitiam aos passarinhos andar de cabeça baixa, olhando para o chão e contando as pedras do calçamento.


Não sabia rir. Mas tinha uma prima muito risonha. Pediu que lhe ensinasse.
- Faz assim, ó.
Não deu certo.
- Então faz assim.
Também não deu certo.
- Só sei mais um jeito. Se não der, desisto.
Claro que não deu. Voltou para casa pensando em quem na família também era risonho como a prima.


Dentro da esperança mora uma alucinação que às vezes faz um bem muito grande e outras vezes é apenas uma alucinação.


- Não tem nada pra dizer.
- Mas fala como se tivesse.
- Não é o que todo mundo faz?


De alguma forma a forma chegou ao conteúdo e apresentou uma penca de reivindicações. O conteúdo se conteve, teve tudo para se irritar mas não. Como cabe a quem sabe o que lhe cabe, expôs de volta suas razões e motivos. A forma ameaçou fazer as malas. O conteúdo pulou para dentro delas.


As coisas começaram a ficar esquisitas quando Jobiléu trouxe Maquidão para casa e disse que o estranho ia morar com eles.
- Mas é um estranho, Jobiléu! O que deu eu você?!
- Não para mim – respondeu ele passando a mão cheia de dedos pelos pelos do peito trabalhado de Maquidão.


Perdeu os poucos amigos que tinha num jogo de cartas. Apostou todos eles na certeza de que ganharia, tinha quatro reis na mão. Quando aquele sujeito asqueroso, com seu bigodinho de Clark Gable baixou os quatro ases na mesa, ele não quis acreditar. Não lhe restava mais nenhum amigo para apostar. Levantou desolado e foi beber no bar. Ninguém notou sua presença no balcão.


- Até os teus defeitos sabem que as tuas qualidades são maravilhosas.
- Ah, mas eles sempre enxergaram torto, não vai atrás deles!


Vinha caminhando distraído e, de repente, já não era mais a calçada, era uma nuvem. “Parece a ideia idiota americana de haver morrido”, pensou, lembrando de muitos filmes tolos em que isso ocorreu. Então estacou. “E se isso aqui for um daqueles filmes tolos? Pior ainda: e se um daqueles filmes tolos estivesse descrevendo isso aqui?” Começou a pisar com mais força naquele chão de nuvens. Mas ele não afundava nem um pouco.


Quis marcar encontro consigo mesmo, precisava muito dizer-se umas verdades e esclarecer pontos obscuros, mas não conseguiu se encontrar para isso, Os recados que marcou retornaram. O correio carimbou endereço inexistente e o servidor de email também. O que é que eu faço agora, perguntou a si mesmo. E continuava não respondendo.


ALGUNS MINICONTOS

O tipo de pessoa chegou todo arrogante para a espécie de pessoa e exigiu passagem. A espécie de pessoa mirou-o de alto abaixo e mandou que fosse falar com o tipo de gente.


- Ele sempre diz o que pensa!
- Pena que nem sempre pensa no que diz...


Se fosse verdade o que estavam dizendo de Atulínia, ele simplesmente não conhecia a pessoa com quem estava vivendo há mais de quarenta anos. Então, claro que não podia ser verdade o que estavam dizendo de Atulínia. Ou podia?


Sem perder tempo, correu a não fazer nada antes que tivesse que fazer alguma coisa.


Cuidados extras levaram Matubina a não pisar onde devia, não falar o que devia, não fazer o que devia. Cuidados extras levaram Matubina a ter muito cuidado com cuidados extras.


Quem quisesse ir junto tinha que pedir tanta licença, mas tanta, que acabava preferindo ir separado.


Ficando com a impressão quando a impressão podia ter ido embora, Falitto ocupou com ela um espaço que a impressão nenhuma gostaria de ocupar. Ficaram a impressão e a impressão nenhuma insatisfeitas enquanto Falitto contava a amigos que não o ouviam a impressão que lhe ficara.

(Rogério Camargo)

23/10/2014

Velho novo dia







Velho novo dia 

O sol surge lá ao longe no horizonte,
E galos cantam nos quintais de alguns casebres.
Pequenas crias nos seus ninhos são nutridas,
O João de barro dá início à construção.
Buzinas frenéticas travestidas de bom dia
Berram e ecoam despertando a multidão.

Pernas caminham para as suas árduas labutas,
Indo à luta sem saber quem vai vencer.
Mil estorninhos fazem balé ao som do vento
No mesmo instante que mil homens estendem a mão.

Olhos abrem e fecham ao tocar de amantes bocas;
As alianças vão fazendo a morada em dedos,
E vão-se brilhos, vão-se os sons e vão-se os medos...
E dá-se o ensejo da sagrada comunhão.

André Anlub®
(18/10/14)

Ops...

22/10/2014

Uma manhã de Iansã

Como disse meu amigo poeta Mano Melo: "Hoje os Orixas me acordaram cedo. Bom dia a todos."




Foi hoje pela manhã
(André Anlub - 7/4/12)

Solto os verbos com as rimas
Loucura sob o céu que observa
Fortes são minhas asas que vão ao vento
Fazendo do meu mundo minha quimera.

Sem bússola e sem direção
Emoção no contato com novos povos
Povos com ritmo, sem inadequação...
Que eternizam a ação do tempo.

Nas paredes descascadas das igrejas 
Visíveis imagens do envelhecimento
Desmascaram as pelejas
Nas esquinas religiosas.

Joelhos ao chão em devoção
Entregam-se ao fado hipotético
Aproveito e solto meu canto poético
Afiada e desafinada oração.

Na saída não apago a luz
Entregue ao provável destino
Com estilo de esporte fino
Nos pés um belo bico fino.

Charuto cubano no boca
Fito no horizonte o disparate

Aceno para qualquer boa pessoa
Quero à toa uma guarida.

Volto do meu voo imaginário,
Toquei o belo azul turquesa,
Preservo com idoneidade e clareza
O que ponho no papel da minha vida.

- Quero ouvir a verve gritando
Ao mundo, ao pouco, como louca rara.

Preciso da sua leitura, 
de corpo nu em noite tão escura 
que nem estrelas darão as caras.