20 de dezembro de 2014

Dueto da tarde (XVII)

Como um felino nervoso cruzando a noite em passadas cuidadosas,
A relva afaga suas patas, e sua mente nada vaga foca num absoluto inquieto.
Os olhos varrem o que não encontram na escuridão densa e pensa, se pensa,
E se acha o que procura, se “fura” o seu destino, se deixa ao desatino de tal noite não achar.
A caminhada é longa como é longa a vida, sua expectativa, seu investimento e o momento... 
Será que e só seguir o instinto? Afinal, acima de tudo, ele pensa em se levantar
Do chão que não é só cuidado, ganhar a nuvem, também, que não é só ideal impossível
E atravessar o infinito, pois todo ser que é mais que um ser, quer superação, quer ser mais que o material
Em que se reconhece. Como um felino nervoso, então, palpando a noite com cuidadosa minúcia,
Larga por um momento a raiva, a relva e a astúcia, vê-se no espelho d’água como se pelúcia
A natureza mãe amante lhe ofertasse ao toque e vai a reboque da sua percepção ferina.

Rogério Camargo e André Anlub®
(19/12/14)

Dueto da tarde (XVIII)

Agora pela manhã caem, sedentos pelo encaixe, dilúvios de palavras desencaixadas e irritadiças à procura da cola da inspiração.
Ontem pela tarde elas levantavam-se, olhava o mundo bem fundo nos olhos e diziam não ter medo de nada, nem da alvorada.
Agora na onda do vento a inspiração e as palavras atravessam os campos de trigo e beijam os que lá trabalham; o tempo seria amigo ou apenas conhecido das palavras?
As palavras, desencaixadas, também se perguntam: que amizade temos com o tempo, que nos esquece e não nos esquece?
Às vezes todos se entendem e nascem magníficos filhos, nascem arte e desafio, amor concreto ou por um fio, tudo se agarrando no fio da meada.
Agora pela manhã, ontem pela tarde, o tempo todo pela noite das estrelas, pela sanha de entendê-las, sem medo de lembrar ou de esquecê-las
Nas arritmias do tempo e da criação segue o menino poeta, nesse momento vai criando o novo ou recriando o velho, dando luz ao sombrio, florindo as alvoradas e ajeitando as placas de mão e contramão.
Há sentido no sentido, nos cinco sentidos, nos duzentos sentidos dos cinco sentidos sentindo... muito.
Nasce na compreensão do momento o sentimento de poder, o sentir-se um Deus, o paladar apurado e revigorado de ver além, e ver, ver... muito.
Agora pela manhã, ontem pela tarde, o tempo todo pela noite das estrelas ver, ver muito. É o que dá sentido.

Rogério Camargo e André Anlub®
(20/12/14)


Crato 250 anos



19 de dezembro de 2014

Em breve e logo mais, não são “pra já!” (em doze tempos)


I

Saindo de Juazeiro, nuvens,
Sol quente, um pouco de sede e muito já de saudade;
Deixando o olhar dos cães
E os meus olhos úmidos para todos que tenho apreço...
Mas é breve, é coisa ligeira.

O tempo passa tão logo, tão “flash”, como os ponteiros do relógio,
Na pressa e na eternidade do tempo que sempre já foi.
Seguem avião e emoção,
Trocam-se óculos...
Escuros – de grau.

Vem bloquinho, vêm sonhos de realidades;
Ao meu lado na poltrona: ninguém!
Lugar vazio é coisa rara nos tempo de hoje...
Vai ver foi de sacanagem,
Para aumentar o vazio e duplicar a saudade.

II

Entrando em Brasília:
Nuvens parecem montes, montanhas;
Nunca as vi com tais formas.

Ao longe uma se destaca mais assanhada,
Como uma torre alta, feito um castelo.
Lá embaixo um rio longo
E a sensação de estarem todos dormindo.

III

Sábado (13/12/14):

Meu café, dia chuvoso – parque meio alagado,
Cabeça lenta, bate-papo com a vendedora de uma loja vazia
E o encontro com um amigo.

Já se foram àquelas pernas energéticas, descontroladas,
Que andavam de um canto ao outro
E nadavam, nadavam a esmo ou não,
E corriam, a esmo ou não, na mais infindável eficácia.

IV

Um rissole de camarão, café espresso
E a pressa de ir a lugar algum.
Uma farinha de maracujá e mais caminhar...
Algumas coisas mudaram/mudam e outras nem tanto,
Busco sempre a poesia velha/atual/nova; o bom, a meu ver, é isso!
E ela?! ela está em todo lugar... Quem?
- Agora não importa...
O celular vibra – é mensagem – é tecnologia!
Agora não; não largarei a caneta.

V

Vulcões estouram, à realidade da lâmina do vento,
Entre diversos contratempos: melancolia e saudade.
Seguimos espertos nos mares, nos maremotos cabreiros,
Nos peixes-espadas guerreiros e ingestão de ornamentos.

O tempo agora é amigo – parceiro, sombra e herdeiro;
Delicado, bem-humorado, sorri a mim com sarcasmo.
É meu ouvinte esse tempo, o grito que ensurdece os receios,
Segredos e vivencias e abrigos – antigos pensamentos são recentes.

VI

Barba enorme e o cabelo que não cresce,
Prece disfarçada de poesia.
Todo dia um bom-dia à “reprise”
E o “vixe” que procuro nas nuvens. 

Damos sempre “viva” aos mortos,
E tem aquele que se faz evidente;
Cantam descrentes e crentes à sorte,
Cantam ao norte na hipocrisia da vida.

VII

Enquanto o sol beija meu corpo
Na fria manhã dessa quarta,
A folhinha com os dias marcados,
Parece caçoar da minha cara.

Veio tranquilidade, mas logo a má notícia;
Veio no dia à perícia, para dar certeza ao estrago.
Mas ponho forte o cordão, meu São Jorge pendurado,
E faço o branco pendão, a paz em seu imaginário reinado.

VIII

Rigor na minha sábia decisão,
Mudanças nos planos da festa;
Há pudor, mas há tiro na testa,
Se houver algum ligeiro mau humor.

Tudo são fogos com o foco armado,
Embriagado de fortuna e sorriso.
Tudo são figas nas mãos dos amados,
E com torcida não há mais perigo.

IX

Ouço pássaros chamando meu nome,
Pela varanda novo dia de conceitos e afins.
Ouço músicas que me remetem ao sono/sonho profundo,
Talvez nostalgia.

Há a obscuridade de lembranças,
Mas há a claridade das promessas e esperanças;

Há um tempo muito novo – talvez amanhã ou daqui a uns anos;
Há um tempo antigo – talvez minha infância ou seis meses atrás.

Na adolescência o tempo era farto,
Mas aos nossos olhos tornava-se escasso;
Com a maturidade o tempo torna-se escasso
E não há espaço para colocarmos as farturas.

X

O Natal bate à porta,
Entorta e revive as letras já tortas e mortas;
O novo dia chega chegando,
Breve e erudito, compromissado compromisso
De haver algo novo e harmonia.

Beijo meu anel de São Jorge,
Ato falho, desnecessário...
Pois na fé sempre me agarro!
Coloco as chinelas que trouxe
De couro velho e sola de pneu de carro;
Coloco o pijama bem leve, 
E para o frio de Itaipava me preparo.

XI

Um “drops” e um drope no copo de café,
Lá vem, com cara de cinza, mais um dia.
Hoje nada de sol, só de só (mas sobrevivo).
A névoa que não se espalha traz um pedaço de bom dia,
Traz a fleuma, bela visão do horizonte,
Inspiração e todo o restante montante...
E, à revelia, me impute felicidade.
O frio não veio;
No velho que passa pela rua com frio,
Vejo seu pensar distante e seu andar sereno.
Na criança do vizinho, 
Sinto o dom da juventude.
No pássaro que canta no voo,
Ouço o som da liberdade...

Hoje sou o mesmo eu,
Mas mais suave,
Sou velho,
Menino
E sou ave.

XII

Agora é sentir a brisa e deixar o clico rolar,
É soltar o barco no mar e acreditar;
É curar o arrepio, ser pertinente e vadio.
A sujeira pode ser limpa
E o borrão tornar-se um belo desenho.

O arremate depende do escultor,
A escultura não está completada;
O que virá, veremos,
O que se foi, folguedo (não quis ser indelicado).
A justiça sempre é feita, de uma maneira ou de outra.

Agora me torno mais eu e bato o martelo;
Cumpro minha missão,
E na submissão, que assaz “sub”,
Meço-me.

André Anlub®
((...)19/12/14)


Ótima sexta!

On the road (Pé na estrada)
(...)
A South Main Street, por onde Terry e eu perambulávamos comendo cachorrosquentes,
era um fantástico carnaval de luzes e loucura. Policiais de coturno revistavam
pessoas em praticamente cada esquina. As calçadas fervilhavam com as personagens
mais maltrapilhas da nação — tudo isso sob aquelas suaves estrelas do sul da
Califórnia, perdidas na aura escura desse enorme acampamento no deserto que L.A.
realmente é. Podia-se sentir o cheiro de erva, de baseado, quer dizer, maconha,
flutuando no ar, misturado com o odor de feijão, chili e cerveja. Aquele incrível e louco
som de bop saía flutuando das cervejarias; o som embaralhava ainda mais aquela
confusão de cowboys de todas as espécies e boogie-woogie dentro da noite
americana. Todos se pareciam com Hassel. Negros muito loucos, com doidos bonés e
cavanhaques, passavam às gargalhadas, depois vinham hipsters cabeludos e
deprimidos, recém-saídos da Rota 66 de Nova York; e então velhos ratos do deserto,
com suas mochilas, indo em direção a um banco de parque na Plaza; logo a seguir,
pastores metodistas com as mangas arregaçadas, e um eventual garoto santo e
naturalista de barba e sandália. Eu queria conhecer todos eles, conversar com todo
mundo, mas Terry e eu estávamos ocupados demais, tentando arranjar uma grana
juntos.
(...)
On the road (Pé na estrada) - Jack Kerouac 
p. 37

18 de dezembro de 2014


ALGUNS MIONICONTOS

- Não te pedi para ficar sozinho um pouco? Não te disse que estava precisando me recolher?
- Mas isso já fazem três meses!
- Pra você ver como eu estava precisando.


A boca cheia falou à boca vazia umas coisas que a boca vazia invejou, pois queria encher-se também. Mas quando teve a fartura diante dos dentes, a boca vazia percebeu coisas que a boca cheia ainda teria que esvaziar-se para perceber.


Nada fazia Falippa mudar de ideia. “Tenho certeza, e quando eu tenho certeza vou até o inferno defendendo a minha opinião”. O que Falippa não percebia é que isso já era o inferno. E ela não perceber fazia parte dele.


A cabeça de Gápilo caiu no chão com um certo estrondo, chamou a atenção de meio mundo, foi uma correria para juntá-la e por de novo em cima do aflito pescoço. Gápilo nunca perdoou sua cabeça por este vexame. Ainda se caísse discretamente e pedisse ajuda com educação para três ou quatro mais próximos, tudo bem. Mas aquele escândalo, aquela falta de pudor histérica, fotos disseminadas pela internet, programas de tevê querendo entrevistá-lo, revistas de homem pelado querendo fazer capa com ele, isso Gápilo jamais perdoaria. Nem que sua cabeça nunca mais caísse no chão.


- Trouxe uma rosa pra você.
- Mas é a mesma de ontem!
- Claro que não é a mesma de ontem, amor. Só a cor é igual.
- Então. É a mesma de ontem!


Hacágio era um homem correto. Aparentemente, Hacágio era um homem correto. Quando se descobriu que ele havia casado duas vezes no mesmo dia com mulheres diferentes e que estas mulheres nunca souberam da amante que ele mantinha desde antes dos casamentos, foi um tremor de terra. Hacágio deu um meio sorriso para todo aquele frenesi em histeria e depois disse:
- Isso que vocês nunca viram minha declaração de renda.
Houve primeiro um pequeno choque, um instante em que tudo pareceu paralisado. Logo após, uma corrida à escrivaninha de Hacágio.


- Quero deixar bem claro que deixar bem claro é coisa pra alvejante e pra sabão em pó. Se vocês querem mesmo clareza procurem um albino.
- O que ele quer dizer com isso?
- Que não quer dizer nada.


Acabou se ferindo na cerca. Ela estava ali para dizer “não passe”. Passou. Mas passou se ferindo, deixando carne e sangue no arame e levando corte fundo e ferrugem consigo. Nada bom. Mais adiante é preciso que haja mais do que outra cerca.


- Não serviu. Bota fora e compra outro.
- Mas custou 50 reais!
- Tu tens 50 reais pra comprar outro?
- Tenho.
- Então bota este fora e compra outro.
- Mas tá novinho, é uma pena.
- É, tá novinho. Mas não serviu...


Aquele poço parecia não ter fundo.
- Quem cavou isso?
- A Natureza, será?
- Olha as paredes. A Natureza costuma fazer desenhos assim?
- Pois é. Quem faria desenhos nas paredes de um poço?
- Pode que nem sempre tenha sido um poço.
- Pode. Mas pra que alguém cavaria um buraco tão fundo, com quatro metros de diâmetro e com desenhos nas paredes?
 - Não sei. Pode ser que lá embaixo a gente encontre a resposta.


- Eu espero muita coisa de ti, meu filho!
- E eu espero que esta sua espera não me desespere...

ROGÉRIO CAMARGO

Dueto da tarde (XVI)

Olhos de lince que alcançam “no lance” a paixão que passa em relance...
Instante mágico de saber e não saber, de ter certeza e afogar-se em dúvidas
E a plenitude absoluta, inspiração e labuta (que engorda e faz crescer).
Não há desculpas para não ter visto: aos olhos de penetração aguda nada escapa.
Não se trata de ser caça, nem caçador; não é preciso haver dor ou desgraça,
Também não é preciso intoxicar-se de felicidade, enlouquecer de coisa boa vista/vivida.
Há a disponibilidade da escolha, mas há de se ter equilíbrio e o brio de enxergar sempre a boa renovação.
O lince caça, a fome consome, mas o olhar de matar também é o olhar da vida tida,
A ansiedade da continuidade, a herança de tempo idos e a necessidade de se concretizar o amanhã,
Quando isso é aquilo apenas em pensamento projetado e aquilo é isso apenas em ilusão cultivada.
Essa “coisa” é o ciclo do natural; assim como mergulhamos nos sonhos com a incumbência de torná-los reais (ou não),
Ela vem e ela vai, porque é dela ir e vir, como é do lince olhar, ter fome, atacar.

Rogério Camargo e André Anlub®
(18/12/14)


17 de dezembro de 2014

Ótima noite aos amigos...





Carro-chefe da vida




Carro-chefe da vida
(André Anlub - 11/10/12)
 
Dizem que vive de pão e água,
É intocável e onipresente
Seguidora do fluxo da vida
E violentamente inocente.
 
Pai e mãe da maioria dos desejos,
Manifesta os sabores e dissabores,
Inexauríveis amores e desamores...
De calibre incoerente.
 
Pula pelos corações inflamados,
(cutuca, grita, devora)
Delibera-se nos canteiros que aflora,
Corrente casta invisível.
 
Do atual lirismo à nostalgia inerente,
Em serenatas e poesias...
Faz-se mais que presente.