29 de janeiro de 2015

Dueto da tarde (XLIX)

      Pastel no mercado municipal (SP)

Dueto da tarde (XLIX) 

O segredo foi revelado, o destino estava traçado, de nada adiantariam as imagens de barro nem as inúmeras velas acessas em nome do sem nome ou até do Nominado. Havia muita coisa por trás do que há por trás e isso não faz nascer o medo; pois isso, aquilo ou até mesmo o inexistente não se desfaz num estalar de dedos.
O segredo foi relevado e com ele a fotografia da consciência, num preto e branco escarpado, como um silêncio do submundo, e o peso evidenciado na visão de um tridente no fundo.
“Não tenho nada com isso”, disse o compromisso com o sumiço. Enguiço logo resolvido pela presença, nada ligeira, da paixão passageira, que andava feito bicho preguiça.
Por lento que fosse, por recalcitrante que fosse, com o tridente ao fundo que fosse, o segredo desanuviou-se. 
Agora sim, com o estalar de dedos, os olhos se abriram, as dores sumiram e surgiram os sorridentes; o verdadeiro valor passou a ter valor e o calor fundiu todos os ouros, pratas, espadas, facas e tridentes.
Três dentes e muitas bocas. Todas a gritar que conheciam o segredo. Todas a querer mascá-lo com os dentes poucos; três sementes, somente três, foram plantadas para garantir o futuro:
O ontem, o hoje e o amanhã. Algum desespero queria coisas outras, uma quarta dimensão. E o segredo, revelado, apenas aguardava.

Rogério Camargo e André Anlub
(29/1/15)


Balé dos estorninhos




Balé dos estorninhos
(André Anlub - 14/10/13)

Vá falar aos quatro cantos
Desse enorme mundo vadio,
Fale logo, vá!

Fale aos ouvidos trancafiados,
Cimentados e mal acostumados.
Grite com todo o pulmão,
Todas as forças,
Até se esvair o ar.

E aquela velha inocência descabida? 
Deixe-a ir:
Já estava sufocada com sua maturidade,
Com seu desenvolvimento e sucesso,
Com o balé dos estorninhos.

Os passos largos, de gigantes dinossauros, são seus;
As impurezas das palavras
Impensáveis nunca existiram;
O seu barco naufragado é passado,
Ou pode até ter sido um sonho;
Ria, pois com o mar é casada
E vive à vontade com os golfinhos.

E agora rebobinou sua idade ao azul bem vasto,
Fixado no fundo da sua íris.
Poderá observar os loucos abutres
Que voam por cima de um extenso deserto
Deixando a sombra de rastro,
Com a sede e a fome,
Que os escoltam de perto.

A você




E o arrogante prepotente morreu e não ficará sabendo que a vida continuou logo após seu enterro. 

A Você
(André Anlub - 4/5/08)

A você dedico meu tempo,
Termino meu verso,
Estampo meu cansaço no corpo e na alma,
Desperdiço meu sangue que já é pouco;
Choro muitas vezes por um sorriso,
Outras por nada;
Abaixo a cabeça,
Me calo,
Me inclino,
Reverencio,
Aceito.

28 de janeiro de 2015

Dueto da tarde (XLVIII)





Dueto da tarde (XLVIII)

Ad-mirado, ad-acertado. E fim de papo - pra início de conversa.
Gente à beça com a cabeça rente na frente da travessa olhando, querendo participar na pressa, na afobação.
Ad-jacentes, conjecturas. E início do papo – pra finalizar o tempo vago.
Sentamos, observamos, conversamos: conservamos o que os anos nos deram, com incondicional paciência estudamos o que somos para encarar o que não se espera.
Uma longa espera, uma longa fila se forma – de esperas – para entrar no assunto, para ter assunto, para assuntar também; no vai e vem do vento, frio, no inverno o invento do intento de viver e esperar por ninguém.
Ad-mirado, ad-acertado: alvo fácil da ad-miração precisa, inescrupulosa, que invade o terreno da impertinência, sem clemência – beirando a loucura, beijando a decadência.
Sentamos para conversar, consentimos para conservar e a busca do centro do centro, do âmago do âmago faz renascer velhas ideologias, amadurecer antigos versos e canções que molham os olhos.
Este é o alvo e a flecha se compraz com prazer, acerta, perfura e cura seus males, nos faz navegar em outros mares, encontrar novos lares e curtir/carpir/admitir a ad-miração de viver.

Rogério Camargo e André Anlub
(28/1/15)

27 de janeiro de 2015

Algumas histórias - Parte VIII




Algumas histórias - Parte VIII
(André Anlub - 12/2/12)

Curitiba e Santa Felicidade

Outro dia bebendo um bom vinho lembrei-me de uma viagem a Curitiba:
Na época (1989) eu tinha uma tia que morava (e congelava) naquela bela cidade.
As passagens de avião ainda eram exclusivas pra rico,
Mas a juventude me fez encarar um ônibus com facilidade.
Curitiba, cidade limpa, 
Segura e de transporte perfeito,
O prefeito na época
Era mais que um político querido.
No chão nem um papel ou palito de sorvete,
Mas o frio ainda seria meu fiel inimigo.
Cheguei no inverno
E se lá fosse o inferno, congelava!
De dia eu pedalava pela cidade em uma Caloi 10...
De luva, gorro e três meias no pé.
À noite um filme com um bom vinho me esquentava.
Fiquei conhecido nas locadoras da área,
E já conhecia uns skatistas no parque Barigui.
Todos os filmes do momento eu já havia visto,
Naquela época eu queria morar ali.
Antes de voltar para casa fui conhecer Santa Felicidade
Bairro que foi um antigo caminho
(tropeiros paulistas que iam em direção ao sul).
Lugar de boa comida, vinhos de qualidade e visuais ambíguos,
Não esqueci de comprar algumas garrafas (presentear os amigos).
No dia da volta até o momento tudo era só alegria...
Coloquei as garrafas normais bem embrulhadas na mala.
Levei comigo uma grande de vinho tinto
(cinco litros)
Mas que com duas horas de viagem
Estaria vazia.
Ao passar por um buraco o ônibus deu uma pulada,
A garrafa no chão e deu apenas uma trincada.
Esvaziou em poucos segundos
O chão parecia um mar...
O vinho se espalhou no lugar,
O cheiro dominou o recinto.
O motorista resolveu não parar,
 E eu fingindo que estava dormindo.

Dueto da tarde (XLVII)



Dueto da tarde (XLVII)

Começou a festa, o batuque aumentou o volume, as dançarinas estavam frenéticas e o tempo ajudou absoluto, 
Com suas estrelas firmes, com o seu mais firme que a areia-tablado, com a firmeza da aragem que refrescava as peles,
Com o pulsar do coração do pássaro, com o congelar-descongelar do lago, com o vago inspirar do bardo e seu verso que faz verter a lágrima.
As aves dançavam junto, as nuvens eram rendadas partituras e o som dentro de cada um era um som universal, uni-versando com o bardo num fardo leve e nada breve de um tanto amado dom (que assim o leva até outra dimensão).
Começou a festa que nunca para na sensibilidade em alas, nas salas e salões amplos como os campos e os mares que o vento beija,
É festa rasteira, mas que voa ao alto; é baderna, besteira, mas coisa ajuizada e mistério, pois eleva a alma sem desprezar o inferno.
Como pode o que não pode caber no que pode? As fitas coloridas girando no corpo nas eletrizadas eletrizantes bailarinas, o som da Vida se apossando de todo o ambiente externo (e interno também), o tempo passando ligeiro (o que é de praxe quando o universo conspira) e tudo que é possível dizer da felicidade cabendo no sorriso da esperança: a de que nunca acabe.

Rogério Camargo e André Anlub 
(27/1/15)

26 de janeiro de 2015

Dueto da tarde (XLVI)



Dueto da tarde (XLVI)

Esperando um grande progresso, encontrou um retrocesso e perguntou: O que faço com este sucesso?
Era assombrosamente descabelado, algo assim como o inferno congelado e um rato audacioso.
Cauteloso, foi palpando aquela superfície viscosa, sensação de carne esponjosa, boca de espingarda se fazendo de dengosa.
Nesse meio tempo inteiro, já havia o planejo desvairado do que seria feito com tal coisa; mas nada saiu como planejado.
A vida não é o que esperamos da vida. Lição carpida em muita despedida de ilusões grandes.
Mas ele abraçou a causa, tratou de guardar na calça, pois se cansou de prestar contas à sua consciência.
Cansaço inútil: ela estaria sempre disposta a cobrar. Mostrou-lhe a carteira vazia, entretanto, e partiu sem espanto para outra. Quem era a outra? O que era a outra?
Seus pensamentos se perderam numa avenida oca, que nem eco fazia; entre tantos temores, ali, na boemia, o seu olhar agora só a via... 
Sim, só havia vê-la. Estava ali, inconteste. Esperando um retrocesso, encontrou este sucesso e perguntou: O que faço com o progresso?
Mas já sabia a resposta.

Rogério Camargo e André Anlub 
(26/1/15)

Das canduras




Das canduras
(André Anlub - 5/5/12)

Há algo doce no ar, algo simplesmente belo,
Não possui preconceitos nem tampouco orgulhos,
Voa por si só e se pousa é por receber amparo.
Cheio de valores e com aroma tranquilo...
Segue impetuoso impregnando prosperidade.
Jamais rejeitado, sua presença beira um salutar vício,
Jamais desmentido, pelo simples fato de ser a verdade.
Há algo majestoso no seu olhar, posso ver no espelho;
Rondando pelas entranhas e contagiando o sangue, 
fazendo os pés saírem do chão e as mãos tocarem o céu 
(invalidando qualquer pensamento malfazejo).
Podem senti-lo por dentro acalorando até à flor da pele, 
fazendo tudo maior, melhor e dando inspiração;
Trazendo sorrisos, forças e infinitas vontades, 
mostrando que de nada vale a vida sem emoção.

Agora há o costume de seguir o próprio caminho,
Escolher as pontes e portas 
e ficar frente a frente com o vendaval, 
sem o aval alheio, sem olheiro, 
sem frase feita e sorriso banal.

Excelente semana aos amigos

Jetsunma Tenzin Palmo nasceu na Inglaterra e foi para a Índia com 20 anos, virou aluna de Khamtrul Rinpoche, viveu 12 anos em retiro numa caverna no Himalaia, tornou-se a segunda mulher ocidental ordenada no budismo tibetano (escola Drukpa Kagyu) e fundou um monastério de monjas, onde é a responsável hoje em dia, além de oferecer palestras e retiros pelo mundo todo. Com uma linguagem simples e um foco na vida cotidiana, sem discursos eruditos, ela é uma grande professora, recomendada por Sua Santidade o Dalai Lama e Alan Wallace.



Um ser quase sábio e afins (compilação)
André Anlub

Em paz abro um gigantesco sorriso
E nada indeciso, festejo;
Meu desejo não é conciso,
E no benfazejo busco o breve beijo.

Por vezes penso em puxar a tomada,
Desligar-me de tudo, raspar a cabeça,
Limpar a consciência e ir atrás da paz interior.

Sonhei com o Tibet!
E pra quebrar o tabu, sem quebrar a tíbia:
Vou tocar tuba, dentro de uma taba,
Deitado em uma tumba.

Eu uso a Itália de bota,
Bebo a Via Láctea no café;
Sou Deus que troca Vênus pela Lua
E depois me escondo onde quiser. 

Buscando plenitude e paz no dia a dia,
Nas águas límpidas do saber viver,
Achando sempre muito mais...
É assim que tem que ser.

Choro por muitas vezes sem motivo,
Posso chorar por você!
Estendo a mão a qualquer inimigo,
Simplesmente por não aguentar vê-lo sofrer.

Tudo posso e faço,
Tudo com minha criação;
Poeta da tinta do espaço,
Sou dono da minha imaginação.

Descansando aqui no meu banco de pedra
Iluminado pela lua cheia,
Que disputa importância com o poste de luz...
Novamente, bloco e caneta nas mãos
E um pouquinho de inspiração.

Renasce com o dia a serenidade,
Que buliu com o ontem fazendo o momento,
Esculpindo o hoje de um modo mais tenro,
Fundindo o amor e rejuvenescendo.

Seduzido no deserto pela miragem,
Fica quase abolida a palavra: sozinho.
Mil dentes surgem sem prévia censura,
Fazendo abrigo no corpo vizinho.

Fez-se vida no horizonte do sortilégio,
Jogada ao vento no intento da vela.
As águas singelas, um sol amarelo,
Nos pés os chinelos de couro bem velho. 

Há aquela clara linha que guarda e guia,
Caminho dos senhores, dos guris e gurias,
Alegrando o coração no calor da emoção,
Tornando a ação repleta e divina.

A essa linha tênue se deixa um pedaço:
- Não da paz, não do corpo, da alma tampouco.
O pedaço que nutre, que fleuma e flora
Com a cor e o sabor de uma torta de amora.

Sinto muito quando meu coração aperta
E nesse aperto ele grita, se expõe e seca.
Compreendo pouco quando fingem indiferenças
E nesse embuste são vítimas de seus próprios estratagemas:

- Assim não sana a ética
- Assim que sangra a estética.

Na despedida da justa causa da vida com raro aroma de quero mais:
Faço da presunção inimiga e digo ser gratificante a paz.

Saber viver, saber esperar,
Tudo na contramão da situação.
Montar no mundo e cavalgar,
Largar o cogente por só querer.

Se o tempo é sua Nêmesis,
Levante e corra em qualquer direção;
Saia do ostracismo de um abrigo
Pois essa saída é enganação.

No adjunto de tudo que te faz feliz
Vale a pena o tempo perdido;
Se por um lado desce ralo abaixo,
Por outro alimenta sua alma.

Com sabedoria, paz e muita calma
O mundo estará em suas mãos;
Com integridade e humildade
Tornar-se-á muito mais do que aprendiz.

Ser um monge na pura meditação
Que paira o silêncio ao se encontrar,
Passeando ao redor do espaço tempo
Sem sequer ter hora para chegar.

(versa e vice)

Totalmente de bem com sua vida
Sabiamente convida ao vivo o bem,
Com sua mente muito bem na vida sã
Para conviver sabiamente com sua vida zen.

Aurora de paz, sentinela,
Seus olhos fitam o amor;
Orquestra um grito de guerra
Na companhia de um Condor.

Vejo de baixo incrível beleza,
Derramo sem piedade meu pranto...
Sem jeito, mas com sutileza,
Viro, caminho e canto.

25 de janeiro de 2015

Dueto da tarde (XLIV)



Dueto da tarde (XLIV)

Um homem, uma mulher, uma criança. O sol no horizonte pensa coisas:
Será que o mar quer desaguar no rio, por que as dunas fogem com o vento, o calor sente remorso do frio? Há felicidade na infelicidade, será que a abelha não quer ser flor, será que a flor não quer ser abelha? 
Uma criança, uma mulher, um homem. O sol no horizonte conclui coisas. Mas fica com as conclusões para si mesmo; não quer entrar em parafuso, não quer ficar confuso, mudar o fuso do seu tempo, tampouco a fase de ser tudo.
Enquanto ele decide suas coisas, as coisas se decidem. Uma mulher, um homem, uma criança diante do sol de um horizonte inteiro descobrem que são de uma linhagem, de uma unção verdadeira, que não morre no final da tarde e não nasce nas manhãs corriqueiras. 
Tomam-se pelas mãos beijadas por este sol, caminham na direção do horizonte, a fronte erguida como para o que não pode ser visto no chão; sentimentos implodem – explodem – eclodem e a lágrima cai nos cantos dos olhos,
Porque uma mulher, um homem, uma criança são toda a humanidade em seus passos frágeis e vacilantes em direção ao cíclico desafio de criar/recriar a alegria (que fica por um fio), de viver etéreo, de controlar o engraçado e o sério e seguir em direção ao que não tem direção mas está lá.

Rogério Camargo e André Anlub
(24/1/15)

Dueto da tarde (XLV)




Dueto da tarde (XLV)

Hoje resolvi fazer uma “limpa”, jogar coisas fora, doar outras e queimar cartas antigas que já não me dizem mais nada mas insistem em continuar dizendo.
Pensei nos diversos momentos, coisas alegres e as que foram difíceis de superar; 
Coisas superadas e difíceis de alegrar; coisas dentro de coisas e fora. Fui erguendo minha montanha e decorando com fauna e flora; fui levantando a bola, redondinha na área, para o futuro vir, mirar e chutar...
Tenho esperança de vibrar com a minha torcida, beijar o escudo de meu time, dar socos no ar. Mas o que acabo vendo me decepciona um pouco; o pouco que busco, o brusco deixou de lado, escondeu... acho que sepultou junto ao legado.
Faço o gol, todavia. Se vai me dar a vitória, a glória de limpar a memória, só o tempo me dirá.
Tento andar na linha, toda vida. Quero o melhor para mim, mas também vou me doar mais e racionalizar.
Racionalizar a doação, não racionar a doação... Tudo aponta para a mesa limpa, o quarto limpo, a casa limpa.
Sempre penso que poderia, aqui e ali, ter sido diferente... mas passou; agora é agir calcado nos enganos, para as mudanças e os objetivos acontecerem e não ficarem só em planos.
Talvez eu tenha que limpar minhas ilusões também. Mas isso fica para outra faxina. Já trabalhei demais hoje. Vou jogar bola.

Rogerio Camargo e André Anlub 
(25/1/15)

São Paulo, 461 anos!



São Paulo – SP
(André Anlub - 24/1/13)

De tudo que leio
Que vejo e escuto
Nada e nem tudo
Pode descrever-te.

Sampa é só flerte
É paixão e poesia
Cultura, boemia
Endereço e adereço.

Sampa de apreço
Será que te mereço?

Pois me perco em teu ritmo
Teus ecos, teus signos
Nas noites em delírios.

Sampa da arte
Moderna e eterna
Museus e histórias.

Cidade mutante
Bravos bandeirantes
Lar dos retirantes
Alçada na glória.

24 de janeiro de 2015

Meu mar é mais melo que marmelo



Meu mar é mais melo que marmelo

Dizem que a inspiração vem pelo ar,
(e é absurdamente bem-vinda, como o amor esvanecido),
E as asas invisíveis já estão batendo, em sintonia...
Distintas criações e influências passeiam pelo ar;

Dizem que surgem e vão-se como uma espécie de epidemia... voejando;
Passam por frestas de janelas, levantam e assentam folhas, poeiras,
Ouvem besteiras da larga e desumana boca da intolerância
Que um dia há de se acabar.

Seguem voando...
Incidem nos cabelos das morenas, das meninas,
Pegando carona em seus luxuosos pensamentos...
Aprofundam-se em sonhos e estacionam (provisoriamente) nas imagens, 
Nascem delas ou as inventam; criam pessoas, situações; 
Criam o mar e canoas – criam o navegante – esculpem a perfeição.

“Queijo coalho, pamonha, acerola, açaí”.
Gritou o vendedor enquanto eu resolvi rabiscar esse texto;
O açaí lembrou-me o mar.

Quero o som do mar, a visão do mar, o sabor do seu sal,
Tombar na monumental percepção de bem-estar;
(mesmo estando longe, e onde mais eu estiver, e hoje, e sempre)...
Quero seus beijos, seu toque, seu banho.

O açaí e o tudo me lembram o mar,
Lembram que o amor foi mergulhar e não voltou,
Pois se transmutou em mar...
E está bom, está de bom tamanho.

André Anlub
(24/1/15)

Herói trágico




Herói trágico
(André Anlub - 14/7/12)

Tsunamis - terremotos
Almas penadas:
- fragmentos de episódios de um cotidiano singular,
Cheiro de eucalipto na cheia banheira da casa,
Banhos de sais e velas acesas só fazem ansiar.
Um amor perdido e desperdiçado
Assusta os ponteiros da vida (montanha russa).
Falam bem alto que o tempo é esgotado,
Aprenderam a lidar com a lida.
Pintam os olhos encharcados com cores de fúcsia,
Relógio antigo na parede carcomida.
É de matar! Sim, de matar...
Já com seus anos vividos e ainda teme paixões;
Burro de carga em estradas esburacadas;
Coração mole de pedra de açúcar;
Herói trágico de sua própria vida.
Deitado em uma cama de vime,
Ou de pés bem calçados no chão,
Pensa que sabe o que é fome,
Cometendo o pior dos crimes:
Ingratidão!

Santos de madeira




Santos de madeira
(André Anlub - 25/12/11)

Pés descalços pisam nas britas,
Que parecem pequenas brasas.
Colher de boia fria na marmita,
Colher de pedreiro nas mãos,
Ensaiando seu karatê. 
(aiá!)
Cheirando cimento,
Colando o pulmão.
O sol fulgente e quente 
Cortando de um lado ao outro
O céu mais limpo.
Rito habitual,
Frito obituário.
Às vezes pisca para a esperança
E o sol ri da sua cara.
E ele, cá embaixo,
Suando em bicas,
Pensa que há uma missão a ser feita.
(e há!)
Nas horas vagas é escultor,
Faz santos de madeira.
Com a ponteira acerta os pontos,
Com o cinzel talha o formato
E a plaina aplana a vida.
(...) E o verniz como o brilho nos olhos
Da lágrima que se mescla ao suor.