01/11/2014

Caixa preta




Caixa preta
(André Anlub - 9/9/13)

Saboreio cada gesto como se fosse o último,
Tento adivinhar o manifesto do seu pensamento
Como se fosse o primeiro, como se fosse justo.
Nada é em vão.

A sua corrente quente me ajuda a nadar,
Fico mais confortável e feliz.
Aquela força resistente me diz:
Atravesse o oceano e me beija.

Pelejas amigas, cantigas antigas,
Caem bem, são bem recebidas.
Paixões passadas, cicatrizes fechadas,
Caem bem, na caixa preta trancada.

Pela manhã molho o rosto e constato minha sorte,
Perdi há tempos a necessidade de encenar.
A barba branca, o cabelo ralo
E da vivência o aguçado faro
- o voo mais acertado.

Limpo a poeira da caixa,
Às vezes passo um verniz,
Mas não abro.

O nosso presente já é tudo que me chega,
Me cega e me cerca, fazendo coerente o amor.
Já não acolho vozes externas, demagogias,
Orgias de picuinhas, não mais...
Enfim você chegou!
Está ardendo àquela prometida fogueira,
Com panos - papéis inúteis,
Quilos de baboseiras...
E a velha caixa queimou.

31/10/2014

Aniversário de Drummond

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX.




Antologia Quinta Barnasiana


Antologia Quinta Barnasiana
do BAR DO ESCRITOR

O Bar do Escritor é um movimento literário que busca a divulgação do conhecimento, a amplitude do pensamento e a expansão da liberdade.

Quinta, em português da pátria-mãe, é um terreno rural, uma enfermaria para prostitutas ou o número ordinal feminino. Esta quinta antologia de contos, crônicas e poemas reúne 38 autores brasileiros e um de Moçambique, escrevendo sobre diversos sentimentos, do mais formal ao mais lisérgico, do mais brando ao mais brabo. São 240 páginas de entretenimento literário, focado na diversão das experiências vividas em assuntos debatidos em mesas de bares.

Entre os autores, destacam-se escritores consagrados, membros de academias de letras, jornalistas, compositores, vencedores de concursos literários, lutadores de MMA, vagabundos, poetas, sonhadores e amigos de toda espécie.

A apresentação é realizada por autores participantes das quatro obras anteriores: Ruy Villani, Magmah e Pablo Treuffar.

Para conhecer a história do bar: http://bardoescritor.blogspot.com.br/p/historia.html

Os Autores:
Andrade Jorge, André Anlub, André Giusti, Andrea Carvalho, Angela Gomes, Arthur Miranda, Carlos Alvarenga, Carlos Cruz, Cecília Mello, Cinthia Kriemler, Cristiano Deveras, Deliane Leite, Fernando Troncoso, Flá Perez, Giovani Iemini, Jorge Amâncio, Julia Pascali, Larissa Marques, Leonardo Macrô, Lourenço Dutra, Luan Luiz, Magmah, Mahara Damasceno, Mahiriri Ossuka, Marcio Takenaka, Maria Ligia Ueno, Mariângela Padilha, Pablo Treuffar, Rafael Albuquerque, Regina Vilarinhos, Renato Saldanha Lima, Roberto Klotz, Robson Lousa, Ruth Cassab Brólio, Ruy Villani, Simone Pedersen, Vinícius G. Ferreira, William Trapo, Wilson R..

As antologias anteriores do Bar do Escritor: http://bardoescritor.blogspot.com.br/p/livros-do-bde.html

www.bardoescritor.com.br
ALGUNS MINICONTOS

Era simplesmente estar ali. Por isso toda a dificuldade para simplesmente estar ali.


- Essa coisa de paixão é muito complicada, rapaz. Você diz que sim, ela diz talvez; você diz que não, ela diz vamos ver; você diz eu quero, ela diz vou pensar.
- Pois é, rapaz. E quando você diz talvez e ela diz que sim?!
- Então! Não é uma barra?


O silêncio floria. Era uma flor silenciosa, claro, feita de recolhimentos, introspecção e alguma timidez. Mas era uma timidez diferente: já havia corrido o mundo e falado com muitos pássaros.


Zalla, a louca, não era louca. Alguém loucamente metera na cabeça que Zalla era louca, conseguira convencer mais alguém e quase convenceram Zalla. Para manter a fama e seu lugar na clínica, Zalla até dava umas risadas estranhas e arregalava os olhos, de vez em quando. Davam-lhe um sedativo, ela perdia um capítulo da novela, mas por uma semana ou dez dias consideravam seu dever para com ela cumprido. Ela também.


A zona rural estava encolhendo. A cidade avançava em direção aos campos com a fome de um leão magro. E o que ela abocanhava não devolvia nunca mais. A zona rural preocupava-se em escrever sua história, pelo menos, para o dia em que tudo fosse a cidade e não houvesse nada além da lembrança. Mas ela escrevia com suspiros num pergaminho de lamentações. Nenhuma biblioteca da cidade receberia este livro. Talvez um museu.


- Eu já li todos!
- Mas são dois mil, oitocentos e vinte e quatro!
- Tô dizendo, eu já li todos.
- Pela ordem, alternado ou de trás pra frente?


- Eu ainda não cheguei a este estágio.
- E você sabe para que estágio está indo?


- Me ensina a ser feliz?
- Claro. Quando é que tu tens tempo?


O neonazista estava muito preocupado: sua suástica virou ao contrário e não havia jeito de desviar. A cada vez que ele tentava força-la a isso, ela girava, ameaçando decepar-lhe o dedo. Quando tentou com um pedaço de madeira, ela partiu-o em vinte. Quanto tentou com um ferro, tomou um choque violento. O neonazista chorou de desespero, as lágrimas pingaram na suástica e evaporaram no mesmo instante.


- Não pode ser assim!
- Então como é que está sendo?
- N´~ao brinca comigo!
- Não estou brinjcando. Pelo contrário, estou fazendo uma pergunta muito séria.
- Você está confundindo o “pode” moral com o “pode” factual.
- Tem certeza de que sou eu que estou confundindo os dois?


Muito elegante nas suas alpargatas marrons, suas meias vermelhas, sua bombacha azul, sua camisa branca, seu lenço verde, seu chapéu de feltro, bigode aparado, sorriso abundante, Gevinácio não entendeu nada quando lhe bateram a porta na cara dizendo “vai embora senão eu chamo a segurança!” Que diabo de mundo era aquele?


Volta e meia não há meia volta: é seguir em frente e seguir reto, sem pausa para o cafezinho e o papo furado.


A vida é melhor quando não quer ser melhor e não se sente pior porque não é melhor.


Beprilina deixou que sua mão saísse flutuando mundo afora, levada por uma brisa brejeira que, quando Beprilina pediu sua mão de volta, riu gostoso e respondeu:
- Vem buscar.

(Rogério Camargo)

30/10/2014

Com o teu dom de escrever




Com o teu dom de escrever
tens um pacto:
- necessidade de expor sentimentos
vomitar teus momentos
teus tons, tuas lágrimas e sinas
sair da rotina de um ser intacto.

André Anlub®

O Sertão vai virar Céu



O Sertão vai virar Céu
(André Anlub - 13/3/11)

Com os pés na terra ele se sente em casa,
Enxada na mão, sol como irmão.

Na fome, sede, cedo e na raça,
Dá bom dia pra cactos - filho do sertão.

Na luz do lampião lê histórias de Lampião.
No chão rachado, passado e presente na guerra.

Sabedoria lhe dizendo: sempre alcança quem espera.
Massa de gente pobre que nem sempre luta em vão.

Enquanto descansa pouco, pouco ganha pão.
Alguns calangos o observam - outros vão para o fogo.

Assim se vai levando, dia sim sem dia não...
Não se pode dar ao luxo de perder esse jogo.

Nessa vida em aberto, todos os dias são incertos,
No milho na cana, na cana ardente e rapadura.

Muitos pés descalços na chuva de insetos,
Tendo a garra, fé e solidão como armaduras.

29/10/2014

Congelando os laços




Congelando os laços

Tu estavas bela na mente,
Com aura brilhante dourada;
Emanavas energia tão quente
Que aquecias minha alma acamada.

Destilavas o amor no teu sumo,
O perigo da peçonha na veia
Que desvirtua o coração em teu rumo,
Pondo chama na paixão que incendeia.

Perdido, me entrego em teus braços
Na cadencia apimento a canção
Expondo e congelamos os laços.

Finalmente os anseios em união,
Do sonho – do céu – da realidade,
No corriqueiro eterno em lealdade.

André Anlub®
(26/03/13)

Venha Ler André Anlub

Encontra-se num orbe longínquo,
Meu ego prófugo e inútil,
Degredado pela poesia,
Encalçado pela humildade,
Pois sendo maior de idade,
Bateu em retirada
Ferido e cansado da vida. 

André Anlub